renascida

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Nome: renascida
Local: Belo Horizonte, Minas Gerais, Brazil

Quinta-feira, Novembro 27, 2008

bora, bora...


Abandonei as cicatrizes. Sei onde ficam e me tranqüilizam. Confortam-me. Tenho cinco na cabeça, uma no braço esquerdo e uma última na rótula do joelho. As cicatrizes me adaptam. Identificam o meu corpo, já que não nasci com nenhum sinal de nascença.Não sou masoquista, não me entenda errado. Ou me entenda errado, que é seu jeito possível de me entender.As cicatrizes não são provas de quanto se sofreu nesta vida, relógios de bolso a clamar piedosa pontualidade: "quando aconteceu isso?"Ao contrário, vejo na cicatriz a marca de que me sarei.

De como a pele milagrosamente se regenera e me protege. Ela não atesta meu sofrimento, indica que posso me recuperar com a facilidade que sangrei.Dores velhas contam maldades pelas costas. Não dê ouvido. Dores novas gostam de insinuações. Não dê corda. A dor não tem pescoço e vai pedir o seu.

Abro uma confidência: de tanto mexer nas minhas feridas, elas só infeccionaram.Não faço mais turismo em minhas dores. Nem convido outros a sofrer de novo comigo, como se fosse uma espécie de justiça o outro penar o mesmo que eu.Tristeza guardada não cheira bem, raiz rançosa, como roupa guardada, como comida guardada, como amor guardado. Não me peça para chorar duas vezes. Em mim, há mais boca para nadar do que olhos.

É virada do ano.

Não contabilizarei o que não consegui e o que me falta. Não amaldiçoarei um relacionamento que não me ofereceu o que esperava, não cobrarei a juventude que doei a alguém, não justificarei rupturas e fracassos.

Vou procurar a fruteira do bairro. Fruteira não nos obriga a entrar. Está entre a rua e o interior de uma casa. Oferece liberdade para espiar.Andarei aleatoriamente pelos caixotes e bancas de madeira. Do canto da parede, levantarei uma bandeja azul, bem gasta, para carregar os cachos e as porções. Essas bacias têm muita honestidade.Atrás do balcão, o dono e seus óculos inquisidores. Retribuo sua desconfiança com meu riso ingênuo. Ninguém resiste a um riso sem palavras.Não existe nada mais terapêutico do que cheirar as peles das frutas. Superior à maciez de nossas cicatrizes.Convidarei cada fruta a dançar em meu rosto. Não, dançar não é o ideal. Serei antigo. Convidarei as frutas a me conduzir. Conduzir é mais do que convidar a dançar. “Pode me conduzir?”, perguntarei. Era aquilo que as pessoas diziam quando não conheciam os passos de uma música.E levarei fruta-do-conde, lima persa, uva rubi. Para não negar a aristocracia de minha alegria.


Fabrício Carpinejar


inerme não mais,
incólume também não,
apenas sobrevivente,
ou melhor,
vivente,
pulsante,
mosaico, vitral,
diabo a quatro, coração chagásico.
inerme não mais
não
não
não.


''Eu vivi uma dor que hoje é uma estatística. Os jornais não têm tempo de saber do sangue entre as letras. Então escrevo. Para adubar de vida as folhas, os signos, os índices. ''

viviane mosé.

Sexta-feira, Novembro 21, 2008

drummondiana





NÃO SE MATE
Carlos, sossegue, o amor é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe o que será.
Inútil você resistir ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
reserve-se todo para as bodas que ninguém sabe quando virão,
se é que virão.
O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas, vitrolas,santos que se persignam,
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe de quê, pra quê.
Entretanto você caminha melancólico e vertical.
Você é a palmeira,
você é o grito que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém, ninguém sabe nem saberá.
Carlos Drummond de Andrade


Drummond anda tão impregnado em minhas artérias,
lá na aorta então- huuumm!!!!,
tão chagásico este meu coração que às vezes penso, deixa para lá.
hoje eu acordei com uma vontade imensa de amar,
eu amo...

vade mecum.

Terça-feira, Novembro 18, 2008

avessa à literalidade




Convite Triste

Meu amigo, vamos sofrer,
vamos beber, vamos ler jornal,
vamos dizer que a vida é ruim,
meu amigo, vamos sofrer.
Vamos fazer um poema ou qualquer outra besteira,
Fitar por exemplo uma estrela por muito tempo,
muito tempo e dar um suspiro fundo ou qualquer outra besteira.
Vamos beber uísque,
vamos beber cerveja preta e barata,
beber, gritar e morrer,ou, quem sabe?
beber, apenas.
Vamos xingar a mulher,que está envenenando a vida com seus olhos e suas mãos
e o corpo que tem dois seios e tem um embigo também.
Meu amigo, vamos xingar o corpo e tudo que é dele e que nunca será alma.
Meu amigo, vamos cantar,
vamos chorar de mansinho e ouvir muita vitrola,
depois embriagados vamos beber mais outros seqüestros( o olhar obsceno e a mão idiota)
depois vomitar e cair e dormir.
(Carlos Drummond de Andrade)


tá vendo, vai, vai,
vai levar tudo ao pé da poesia.

olha no que deu:
fui ao médico dos sentimentos hoje e recebi à seguinte intimação:
pare de beber fermentados.

Aff!

de novo não!!!! .
... em pensar que tenho que tomar medicamentos para curar o metabolizador-mor de sentimentos.

pois é, isto porque ontem no yoga o professor falou que o órgão responsável por todo o metabolizar dos sentimentos-- não gostei muito da palavra, muito sistema digestório, mas não achei palavra poética para tanto- é o ESTROMS....

imagina, logo o estroms.
logo eu que sequer tenho pan.... lá, lá,lá, lá, lari.....

o fato é que na próxima encarnação quero nascer com uma moela.
juro, quero ter moela no meu sistema digestório--reitero!

que fique bem claro que não quero nascer Ave, quero nascer GENTE mesmo....
assim fica mais fácil triturar, rumino menos
sem precisar desgastar muito, ou ficar na abstinência.

Rsrs.


Mas falando sério, convite triste de .... é rôla!
ainda bem que o dotô só falou fermentados!

essa fota é um exemplo claro de um convite alegre e de uma noite leal.

tim, tim....

e para terminar, um trinta de julho como eu:
Poeminha do Contra
Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.Eu passarinho!

Quarta-feira, Novembro 12, 2008

Do asco à esperança


''(...)Você sofre demais me disseram. Ou eu explicito? Ao invés da clausura dos afetos que um dia se cristalizam no estômago ou nos rins. Preciso de lâminas que arranquem os fiapos de manga entre meus dentes. Enquanto me deixo seduzir pelo sol que me aquece neste fio de luz escapando da janela. Eu sofro mesmo demais. Talvez eu tudo muito demais. Mas me tocam as coisas e isto me significa (...)''
viviane mosé
andava meio desacreditada com o ser humano, mas ontem fiquei comovida com o que ocorrera comigo. Em suma, sexta feira perdi meu código, este “ anda comigo’’ aí de cima, de tanto que gosto dele, perco-o, já é a segunda vez em menos de quinze dias. Enfim, ele ficou em um dos bancos da praça da liberdade.
Eis que um ser humano, que num primeiro momento achou inusitado alguém ter a capacidade de perder aquele ‘’trambolho’’, encontrou-o.Ela disse que aguardou por quase uma hora, na esperança que a pessoa retornasse em busca do livro. O que aconteceu foi que a pessoa, a lesada que te escreve, não retornou e voltou para casa com aquela sensação: “ que bosto, eu sempre perco tudo’’.
Três dias se passaram e eis que atendo um telefone às 22:30.
_Gostaria de falar com a Renata?
_ é ela.
_ Renata, eu encontrei seu vade mecum na praça da liberdade e gostaria de devolvê-lo, é possível encontrarmos amanha?
( minha primeira reação foi de espanto, fiquei boquiaberta, olhos estatelados e meio sem reação)
_Sim, sim. Mas como conseguiu meu telefone? (detalhe: o vade mecum só tinha meu nome, escrito com minha letrinha ordinária!)
_ Na verdade, tentei na Telemar, mas não consegui, aí pedi um amigo que trabalha na Oi para olhar para mim.
Fim de conversa, marcamos de nos encontrar ontem.
Fui dormir com o coração todo feliz, bacana demais.
Ontem, recebi de volta meu vade mecum, nosso encontro foi na praça sete, eu a agradeci, com os olhos cheios de lágrima, ela pediu desculpas pelo atraso e me desejou boa sorte no concurso.
Ufa...
Imagina…
Sai de lá, chorando horrores, atravessei à afonso pena com lágrimas escorrendo pelo rosto.
Retomei a esperança que andava tórrida no meu peito;
Acho que isso, foi uma provação divina.
Uma força divina, ou Deus, me trucou e sem maldade colou o zap na minha testa.
Minha querida , não seja tão maniqueísta, ou tão desacreditada assim,
Somos humanos, ou melhor, nas palavras de Nietzsche :
Demasiadamente humanos.

Domingo, Novembro 09, 2008

arcada dentária...


a fota:
pultz, essa fota é meu papel de parede, e eu ao ve-la agora bateu uma giga saudade deles, nossa!
ai, ai, minhas retinas fatigadas ficam assim, assim assado, rs!
a musga:
não pense nada ao meu lado, capto o sentido...
dó menor é pouco.
vai neruda!

Terça-feira, Novembro 04, 2008

ahhhh, ou ar??

RIOS
(do livro DESATO, Record, 2006)
Viviane Mosé
Rios quando ainda são rios conservam vegetação nas margens.
Córregos são águas geralmente claras que correm rasas
Entre as pedras.
Algumas vezes árvores chegam a cobrir um rio por inteiro:
Suas copas vão tecendo um véu verde sobre as águas(em geral muito limpas) que correm.
As margens de um rio são plantas e terra molhada.
Terra e água em convivência pacífica.
Que não é lama.
É terra e água.
Em sua diferença.
O leito se sabe leito daquele fluxo líquido inserido no chão.
Eu poderia chorar de coisas assim.
Corre um rio de minha boca corre um rio de minhas mãos
Dos meus olhos corre um rio.
Na verdade sofro de excessos.
Que me dão certo vocabulário
Como derramar. Escorrer.
Atravessar.
Tenho a impressão de que tudo vaza.
Em sobras.
Tenho dificuldade em caber.
Pra caber mais derramo.
Por nada derramo sem motivo.
Vou acalmar meu excesso pensei.
Ministrando doses diárias de barcos ancorados ao sol.
Rodeados por pequenos pássaros em busca de restos de peixe.
Águas se lançando sobre as pedras.
E um vento que parece vivo.
Como se tivesse a intenção de às vezes fazer agrados
Em minha pele.Meu rosto tem muita simpatia por ventos.
Reconhece certos humores próprios a vento.
Gosto de coisas que se movem.
Por isso aprecio rios e não sou tanto assim apegada a mares
E árvores.
Se bem que tenho enorme ternura por bois
Fincados no pasto como palavras no papel.
Palavras são estacas fincadas ao chão.
Pedras onde piso nessa imensa correnteza que atravesso.
UFA,
essa poesia me deixou sem ar!
nem consigo comentar, alias nem precisa.

Segunda-feira, Novembro 03, 2008

segunda de novo.

"Quem já passou por essa vida e não viveu
Pode ser mais, mas sabe menos do que eu
Porque a vida só se dá pra quem se deu
Pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu "
Vinicius de Morais
"ostra feliz não faz pérola"
Rubem Alves
acordei com estes dois excertos na cabeça,
fruto de um sem números dialogos e divagações.
um tanto de tanta cousa,
excessos e faltas,
desejos.
remar é preciso.
rumo ao Mar.